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Imprensa e Comunicação

O outro lado da Bitcoin

A moeda virtual, que antes era vista apenas como coisa de nerd, se tornou um negócio lucrativo e gigantesco, valendo mais de US$ 35 bilhões. Entenda como funciona esse mercado e como empresas e empreendedores estão aproveitando a febre do ouro digital.

Polêmica e misteriosa, a Bitcoin já está mais presente no dia a dia dos consumidores do que se imagina. A moeda com viés revolucionário, e que à primeira vista parecia coisa de nerd, já pode ser utilizada tanto para comprar um sanduíche em algumas lojas do Subway espalhadas pelo mundo, como para dar a entrada em um apartamento aqui no Brasil. Mesmo enfrentando muita desconfiança do mercado, por não possuir uma regulação específica e permitir transações totalmente anônimas, a Bitcoin e as outras moedas virtuais entraram no radar dos investidores do mundo inteiro.

Essas apostas não são aleatórias. Atualmente a moeda tem cotação de US$ 2.280,25 por unidade e obteve valorização de 2.850.000% desde 2010, quando valia apenas US$ 0,08, e de 155% neste ano. O volume diário de transações também é alto: US$ 1,4 bilhão somente na quinta-feira 20. É correto, portanto, dizer que a Bitcoin e suas irmãs se tornaram muito mais do que apenas uma forma alternativa de realizar pagamentos. Investidor desde 2013, o programador paulistano MP, que pediu para ter sua identidade preservada, diz que ganha bem especulando com a moeda digital: ?Só neste ano ganhei R$ 114 mil com as altas das moedas que invisto.? Mas qual é o risco?

Com certeza, muito alto. O sistema de compra e venda das moedas virtuais funciona como um mercado de ações. Por meio de uma corretora, o interessado pode realizar a compra de uma unidade, um lote ou mesmo uma fração da Bitcoin. Na maior parte das vezes, o pagamento é realizado por depósito bancário ou cartão de crédito. Além da Bitcoin, há diversas outras moedas no mercado que pegaram carona no crescimento da tecnologia utilizando estruturas semelhantes, como Ethereum, Ripple, Litecoin e Dash (saiba mais no quadro ao final da reportagem).

?Hoje, a Ethereum é a moeda do momento?, diz Diego Barreto, mestre em administração pelo International Institute for Management Development (IMD), da Suíça. ?É a que tem a melhor estrutura para apresentar algo diferente e se tornar uma rival para a Bitcoin.? Parte de uma plataforma de computação descentralizada que visa a criação e a execução de acordos virtuais, ela já valorizou 2.400% no último ano e chamou a atenção de bancos e instituições financeiras, como JPMorgan Chase, Santander, Credit Suisse, além de empresas do Vale do Silício, como Intel e Microsoft, que enxergam com bons olhos a nova tecnologia.

É bem verdade que esse tipo de inovação faz muito mais sucesso no exterior. No Japão, por exemplo, uma lei aprovada em abril tornou as moedas virtuais formas reconhecidas de pagamento, o que deve fazer com que até 300 mil estabelecimentos passem a trabalhar com Bitcoin até o fim do ano. No contexto global, vale citar o exemplo da Microsoft. A gigante do Vale do Silício aderiu à moeda em 2014, quando passou a permitir que ela fosse usada para a compra de créditos que podem ser gastos na loja online na aquisição de aplicativos, músicas e jogos em lojas digitais do Windows e do Xbox.

A plataforma de jogos Steam, a empresa de criação de blogs WordPress, agências de viagens online como Expedia e CheapAir também são outras empresas adeptas a nova forma de pagamento. A febre do ouro digital chegou até mesmo à maior rede de restaurantes do mundo, o Subway. Algumas unidades da lanchonete nos Estados Unidos, na Rússia e na Argentina aceitam Bitcoin. É também possível realizar a conversão para dinheiro em um dos 1.331 caixas eletrônicos especializados na moeda digital espalhados pelo mundo ? apenas dois estão no Brasil, na sede da corretora Bitcoin to You, em Betim (MG).

Por aqui, o cenário ainda é nebuloso. O governo começou a discutir no começo de julho uma possível regulamentação das moedas virtuais no país. A ideia é dar mais poderes a órgãos como Banco Central e Receita Federal para fiscalizar as transações realizadas com moedas virtuais e também criar uma nova forma de arrecadação de impostos. ?O objetivo é entender como uma moeda de alta volatilidade impacta na economia?, afirma o deputado federal Expedito Netto (PSD-RO), relator do projeto de lei que discute a regulamentação. ?Estamos primeiro tentando entender os aspectos desta tecnologia, para depois tomarmos uma posição a respeito da regulamentação?.

Ao que foi apurado pela reportagem da DINHEIRO, no entanto, há uma corrente dentro do Banco Central que considera difícil a regulamentação, uma vez que não há uma entidade global que controle a moeda. A proibição também está fora de questão, já que fere princípios do Marco Civil da Internet. Mesmo assim, já é possível encontrar uma grande quantidade de empresas de micro e pequeno porte que querem inovar na forma de realizar as transações financeiras, conforme mostra o site CoinMap.org.

Já é possível até mesmo realizar a compra de um apartamento quitando a entrada do imóvel (desde que o valor não ultrapasse R$ 100 mil) usando a tecnologia. A novidade foi introduzida pela construtora Tecnisa. A empresa trabalha em conjunto com uma corretora de Bitcoin, a coinBR, que recebe o pagamento na moeda virtual e o repassa para a construtora. Para incentivar o uso, a Tecnisa ainda oferece um desconto de 5% no saldo devedor para quem optar por utilizar a tecnologia. O primeiro apartamento comercializado desta forma está em fase final de venda em Curitiba (PR).

Fundado em 2013, o Mercado Bitcoin é atualmente a maior corretora de Bitcoin da América Latina. A empresa afirma que atualmente conta com 350 mil clientes, movimentou US$ 100 milhões nos primeiros seis meses do ano e apresenta crescimento médio de 200% ao ano. ?A Bitcoin é muito mais do que apenas o futuro do e-commerce?, afirma o cofundador da companhia, Rodrigo Batista. ?É o início de uma nova era em que você possui ativos virtuais em circulação?. Na teoria, o trabalho de Rodrigo não parece algo tão difícil. Ele atua como intermediário no processo de compra e venda das moedas e lucra com taxas pagas ao site em cada transação.

Na prática, é outra história. As corretoras são alvos frequentes de ataques de hackers e os investimentos em segurança não são baratos. Na Foxbit, outra corretora, essa com 80 mil clientes e que recebeu investimento anjo no final de 2014, no valor de R$ 440 mil, as tentativas de ataques ocorrem com frequência. ?Durante o mês de maio, em que a moeda chegou a custar mais de US$ 3 mil, sofremos tentativas de ataques diariamente?, conta Guto Schiavon, diretor de operações da empresa.

A tentadora possibilidade de multiplicar o dinheiro de forma fácil, rápida e livre de impostos ainda esconde alguns perigos. Todos os profissionais e investidores ouvidos pela DINHEIRO afirmam: o momento é de cautela. Em agosto, a comunidade de mineradores da Bitcoin vai decidir se realiza ou não o hard fork, uma mudança radical na estrutura da moeda virtual. Caso isso aconteça, existe a possibilidade da criação de uma nova Bitcoin, o que faria com que a antiga se desvalorizasse. Apesar de contarem com tecnologias revolucionárias, essas moedas virtuais ainda seguem a atemporal lei da oferta e procura.

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